quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Parece-me que

Hoje pediram-me um parecer, coisas da profissão... eu que nada sei da vida, hei-de ter que opiniar, argumentar, fundamentar, escamotear-me pela posição que defendo quando de posições só me lembro das nossas, corpos sumidos no cetim de camas estranhas a brincar com a elasticidade que (ainda) nos vive mais na mente que nos ossos. Não me nascem facilmente as palavras, caprichosos que me são os dedos no que toca a assuntos profissionais, ao passo que o que me falta é tempo e espaço onde me caibam todas as ideias quando o assunto és tu. E vejo a tarde passar e escorrer-se pelas fachadas em redor, desvio os olhos dos documentos que troçam de mim e me matam de tédio, e deixo-os pendurarem-se do teu nome que mora no telhado do prédio da frente. Vejo-te ali todos os dias, leio-te quer queira, quer não, e elevo-me em disparates como qual será a probabilidade de me cair uma letra em cima, e não sei se tão disparate assim porque, afinal, também tu me caíste num caminho se queria pacato, furacão numa existência que se adivinhava pacífica. E a merda do parecer que tanto me custa a parir, nada para dizer, e em vez de teorias jurídicas rebuscadas, só me ocorre divagar sobre o quanto me parece bem o teu corpo na minha cama, mas também podia falar das mãos, dos pianos, dos livros e até das outras, tantas, mulheres. És assim, afogas-me em considerações sobre tudo e mais alguma coisa, e às vezes só há que ceder à vontade de deixar tudo para depois e não mais fazer do que pensar-te até que me doa a alma, tanto quanto já me dói esta falta de criatividade. Hoje pediram-me um parecer e eu sem saber o que hei-de inventar para lá de todos os finais que já dei à nossa história, por isso o melhor é voltar a tentar amanhã...

domingo, 20 de Setembro de 2009

Abraços desfeitos


Das coisas que quero muito, a que quero mais é aprender a virar o destino às noites de espera. Deixar de me entediar a contar os faróis que escorrem pelas avenidas, saber virar costas às horas que me morrem no olhar e fingir que não desejo mergulhar no teu para te abocanhar o avesso. Recusar este desejo de te entrar no sangue, inventar outro fim, matar qualquer ideia que envolva crianças e nem sequer pensar em pequenos-almoços aos domingos de manhã. Pareço-te doce, mas não o sou quando me perco a interpretar-te os silêncios, nem tão pouco quando o espelho me devolve um corpo que te serve tão bem. Foge-me o porquê do espaço das tuas maõs onde eu caibo inteira, tu desfeito... Eu a viver entre o tudo e o nada, encolhida num banco de trás, a rezar para apanhar todos os semáforos vermelhos, sem perceber que há noites em que és o maior de todos.


quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

Foi assim...


fotos minhas

Houve uma Atenas muito feia, triste e suja, quente demais e a que parece ser insuficiente o esplendor em que se ergue o Parthenon no cimo da colina, cuja vista, lá de cima, faz lembrar uma qualquer cidade árabe. Mas esquece-se Atenas ao pisar o frenético, mas organizado, porto de Pireus, ao apetecer entrar em todos os ferries, ao querer mergulhar o corpo em todos os mares que beijam as (ainda) calmas praias das ilhas. E a partir daí houve céu a perder de vista e a fazer esquecer o que ficou e o que devia ser mesmo esquecido. Houve um mar supreendentemente frio, como eu gosto, tardes de silêncio apetecido, dividido entre breves dormitares e as páginas de um livro a condizer com a silly season. Houve o avistar de falésias inebriantes que fazem acreditar que a perfeição existe, quanto mais não seja na arquitectura. Houve o mais bonito pôr-do-sol do mundo e cujo fim é brindado com um aplauso da audiência... tentei tanto guardar a imagem daquela encosta em mim, pontilhada por silhuetas encavalitadas nos muros e em que se cheira a devoção a um espectáculo que acontece todos os dias e de borla! Houve estradas conquistadas de mota, uma ilha atravessada sob um manto de estrelas, o vento no peito a fazer o coração bater mais depressa. Houve a melhor padaria do mundo, portas abertas 24h a uma fome que chegasse sem aviso; sorrisos amigáveis, sinceros, disponibilidade genuína como a do senhor que me queria encher o depósito, mesmo sem ser empregado da bomba quando me dirigi a ele só para perguntar se o que tinha era suficiente para ir à cidade e voltar... Houve Lefkes, talvez a melhor surpresa dos dias de estrada, uma vila branca do interior tratada com um cuidado característico dos que amam o que é seu, dos que o embelezariam para si mesmo que nem um só turista pisasse aquele chão. Houve barcos ancorados no porto, sedução, gatos meigos e cães enormes, muitas gargalhadas e fotos parvas... e para o fim já havia falta de filmes e de informação, do i ao sábado, de livros a sério, tempos de saudade.
Hei-de um dia escrever sobre as viagens que tenho feito, mas parece-me tão díficil descobrir em mim todos os sentimentos que me provocaram...

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Até já

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 7 de Julho de 2009

Quem (o que) não fica

A sede de mudança nunca chega de repente. Lentamente, começa por tornar mais duras as manhãs, faz-se sentir nas horas que vão contendo mais minutos a cada dia que passa e transforma em inverno todos os meses do ano.
A T. vai para a Índia daqui a dias. Perder-se ou encontrar-se? Eu e a S., a minha outra metade além fronteiras (é supreendente como a vida pode ser tão simples), continuamos pelo mar quente do Mediterrâneo. Basel e Berlim ainda hão-de ser nossas este ano e tenho a certeza que não há geração que viva mais para viajar do que a minha. É a sede de mudança que põe o verbo a encabeçar todas as prioridades.
Antes da partida, o casamento da G.. Nada muda, mas vai valer pela festa e pelo rídiculo de 13 damas vestidas de rosa choque.
Enquanto espero pelo metro, abro o bloco de notas que trago sempre na carteira. Cantos de folhas dobradas, na capa o Pianista do Picasso (memórias de Barcelona e do Palácio da Música, tão belo), abro numa folha em branco e no topo:
A Mudar a curto prazo:
nº1. varrer de mim o medo.


domingo, 7 de Junho de 2009

...está bem, então... vamos tentar de outra maneira, talvez seja mais fácil... afinal, de pouco serviu o silêncio e já me doíam as mãos de segurar as palavras que pediam para nascer. É a folha que te chama, numa esperança tão infantil de reter o vivido e o por viver. Sobrava-me o tempo em que te derramava em frases que te traziam até aqui, desenhava-te a silhueta, adivinhava-te os trejeitos, sabia-te de cor as rugas e imperfeições do rosto. Ao terceiro parágrafo, já eramos um do outro, corações descontrolados, apertados em corpos que se espraiavam no branco de uma cama xxl. As minhas palavras eram as horas que não te tinha, eram as faltas, as ausências, as esperas. Eram tudo o que sobrava de um mundo imperfeito, a borracha que apagava os traços trémulos, a cor que definia os contornos.
Eu escrevo e tu aqui outra vez. E tanto por fazer, por escolher, tanto em que pensar... precisar de parar de escrever para que tu noutro lugar que não aqui.
Mas não é tão simples, meu amor... senão te traz a escrita, traz-te a noite; se te fujo das palavras, arrasto-te pelos sonhos; evito-te a voz, e tu em todas as rádios... e, então, senão posso fugir e senão me dá descanso a fome de mais letras, é porque não foi boa ideia!

foto de José Ferreira

Eu não sei escrever, só sei contar porque me bate o coração.

quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Além


Há sempre em mim um pedaço de coração que bate pelo ir. Horas, que depressam passam a dias inteiros, em que a mente se perde no próximo destino, talvez a fuga mais fácil para o caos que delas se apodera. Não faz mal ser uma fuga fácil se tudo o que fica já é tão parco em desafios... Nunca chega o tempo que se fica, é sempre pouco, é sempre menos do que os olhos pedem. O regresso contraria a vontade, e mesmo depois de muitos dias neste chão, ainda os sonhos visitam ovelhas de desenhos animados, lagos a perder de vistas, cumes pintados de branco e uma cidade feita das mais belas fachadas que já vi.
E agora, até à próxima partida, o meu sangue ainda fervilha por Edimburgo...

quarta-feira, 25 de Março de 2009

Luzes

Os dias não têm sido fáceis, horas a menos onde não cabem todos os papeis que aquecem o tampo da secretária. A minha janela já não tem vista para a travessa com nome de flor onde, a cada manhã, o pintor asiático oferece as cores de lisboa à tela. Passava por mim à hora certa, cavalete preso nos ombros magros, "bom dia menina" num sopro educado e quente, típico da humildade de quem cresce longe do seu chão. Agora a minha janela eleva-se a cinco pisos de um chão ruídoso, que sei que me continuará a ser estranho porque ali nada subsiste, tudo é de passagem, o hoje já é ontem. Tenho vista para uma praça também ela com nome de flor e sorrio à coincidência. Nota mental: comprar uma orquídea para o parapeito. Os dias não têm sido fáceis, foge-me a escrita, ou não sei se a vontade. Mas depois há momentos de luz como um certo domingo à noite... o homem que coleciona orquídeas, o que só de si já diz muito da sua sensibilidade, escreve assim
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando
Cada vez mais
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara...
e embrulha-nos com o doce sotaque do lado de lá do oceano, requebra o corpo em movimentos incertos e na voz cabem dores, favelas e o mar quente de pernambuco. Este homem é muitos homens.
Os dias não têm sido fáceis mas, afinal, até parece que não... este senhor volta em julho e eu devo ser muito boa pessoa para merecer ouvir aquela voz, ao vivo, duas vezes na mesma vida.

sábado, 21 de Março de 2009

Também o meu poeta

Talvez porque pouco provável, ou tão só porque sim...

Tango do Marido Infiel Numa Pensão do Beato
Sem tempo para ter tempo
De ter tempo de te dar
O tempo que tu mereces
Prazeres em que tu morresses
Manhãs que não amanheces
E arrepios que estremeces
Na boca de te beijar
Fico sentado no quarto
Desta cama de pensão
Ausente, despido farto
Cansado dessas mulheres
Que ouvem sem em escutar
Que me olham sem me ver
Que me amam sem saber
Que me roçam sem tocar
Que me abraçam sem paixão
Que ignoram que eu anoiteço
Que me ensombro que escureço
Que em enrugo e envelheço
Me pregueio e apodreço
E a quem pago o que me dão:
Uma espécie de ternura
Uma imitação do amor
Lençóis que são sepultura
De carícias sem doçura
E dos meus lábios sem cor
Ai dedos no meu cabelo
Quero domá-la e vencê-la
Quero vivê-la ao meu modo
Até encontrar por fim
Aquela voz de menino
Há tantos anos perdida
Há tanto tempo esquecida
Em soluços dissolvida
A gritar dentro de mim
António Lobo Antunes

quarta-feira, 11 de Março de 2009


"Uma inesperada urgência em saber tudo sobre aquele senhor jardineiro e escultor e eternamente criança. Tal e qual quando uma pessoa se apaixona anseia ouvir todos os detalhes daquela outra vida para que também passe a ser sua. Sempre na desenfreada miragem de recuperar o tempo perdido. Todo o tempo injusto em que não souberam um do outro. Nada tem a ver com a mera curiosidade. Tem a ver com a extrema possibilidade de anular o isolamento, o sufoco, a asfixia. O problema do solipsismo dissolvido pelo problema do amor. Qualquer coisa assim. Eu passar a ser nós, nós a passarmos a ser o universo inteiro e deus e o inferno. Tanto quanto isso for possível. Tanto quanto isso for permissível. Até se aguentar. Não se aguenta muito tempo. Qualquer paixão tem de acabar. Para poder vir outra."

Pedro Paixão in Rosa Vermelha em Quarto Escuro




Hoje peço-te mil poemas feitos dos nós que nos embaraçam os dedos, onde contes o sangue e as facas que ferem, onde primaveras se desmanchem dos céus e todos os ponteiros girem ao contrário. Peço-te versos que falem dos dias que não me passaram pela pele, de todos esses anos que nos precederam e que, contudo, se fazem pontes nas madrugadas em que a vida nos cruza. Dá-me a mão como se fosse domingo e nos misturássemos com as gentes que preenchem o passeio da foz e canta-me as ruas dessa cidade frenética que te conhece os passos e onde a noite te visita quando aqui a luz ainda me dói nos olhos. Talvez eu possa guardar em mim as estações de comboio onde te perdias por ilusões que espreitavam do lado de lá da plataforma, ou aprenda a escrever com as mesmas cores que pintavam os fins de tarde na serra da tua infância. Talvez amanhã, ou depois, nasça uma criança que cresce num ventre que não o meu e tudo o que nos aparta caiba num só dia, num só poema.